hello, stranger

Maio 31, 2009 at 11:16 pm (coisa minha)

natalie_01

Ele usava muletas e caminhava em minha direção. A dificuldade com a fala, só descobri depois que ele me fez a pergunta:

- Você faz o quê?

- Sou jornalista, menti.

- Pois eu, eu sou entregador de jornal.

E se eu falasse que era veterinária, redatora, estudante, arquiteta? E se eu me calasse e não respondesse, simplesmente? Essa é fácil: eu seguiria sem ter tido o encanto de perceber uma pessoa totalmente estranha tentando se adaptar à minha realidade, ainda que mentirosa. Sempre há de haver pessoas capazes de nos emocionar por seu modo de ver o mundo. Tomara eu nunca perder esse tipo de oportunidade.

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querido escorpião

Maio 20, 2009 at 12:21 pm (Uncategorized) ()

Preciso dizer o quanto sou fascinada pelo seu visual. Gosto de admirar cada parte do seu corpo bem dividido e estruturado. Gosto de te ver saindo de leve da toca, num caminhar lento e calculado, que só animais com muita peçonha têm. Gosto ainda de saber que esta peçonha é parte do seu poder. Qual bicho não seria o tal se levasse consigo uma arma tão paralisante? Suas pinças me hipnotizam e eu chego a pensar em triscar nelas. Que mal me fariam? Sua cor me diz ‘eu sou do bem’ e quase chego a ter fé na sua inocência, embora às vezes eu queira te colocar no meio de um círculo de fogo, só pra saber se é verdade o lance de você se suicidar quando percebe um perigo irremediável. Mas, não faço nada. Só admiro de longe, me permitindo chegar a uma distância segura de você. Porque sim, eu sei: é da sua natureza levantar sua arma e ferroar a vítima. A sua natureza entende que é assim que a natureza funciona. Então eu me defendo, te olho de longe, espio pela fresta de um arbusto. Vejo você dar as costas, fico calada. Melhor não correr o risco de denunciar minha presença e levar um ferrão. Então, eu desejo: vá a outros lugares, conheça outras pedras que servirão de esconderijo. Procure lugares mais quentes quando for inverno, se aqueça num tronco de uma árvore quando for dia, cace à noite. E volte, de vez em quando. Chegue em silêncio, de mansinho como sempre. Mostre de novo quem é que anda com o veneno no corpo. Finja pra mim que não vai me dar o bote. Prometo fingir que acredito e me arriscar a chegar mais perto. Prometo que vou quase querer sofrer a dor que o seu veneno provoca. Até eu perceber a ponta do seu lindo rabo brilhando, com uma gotinha já aparecendo. Até eu ver que está chegando a hora do golpe e voltar correndo – e um pouco mais decepcionada – para o meu ninho de passarinho.

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brincar de Pollyana

Maio 7, 2009 at 6:47 pm (coisa minha) ()

Todo os dias, a Agespisa me ensina novos caminhos, especialmente quando estou vindo para o trabalho. Não vou nem reclamar de quanto a suspensão (e os pneus) do meu carro sofrem com ruas tão cheias de altos, baixos e mondrongos. Vou agradecer pelas novas e impressionantes paisagens de asfalto revirado, homens escavando no meio do trânsito (só com a cabecinha de fora), lindos cones reluzentes à noite e várias – mas, várias – maneiras de chegar até o trabalho dando voltas e mais voltas. Obrigada, Agespisa. Por mudar a paisagem do meu dia a dia. Meus olhos precisavam disso, mesmo! Eu só não sei é se a cidade merecia.

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coça aqui?

Maio 6, 2009 at 8:46 pm (poesia alheia)

Se eu não me engano, até já falei isso aqui no blog: meu coração coça. É sério! Coceirinha física mesmo. E cadê que eu dou conta de chegar com meus dedinhos lá e aliviar? Cardiologista diz que aqui não tem nada demais. Só a tricúspede, que vira e mexe deixa alguma coisinha vazar. Já a Luri, tem outra visão. E sabe que, mesmo sem ter chegado à uma só conclusão (ela chegou à duas…rsrsrs), eu acho que ela foi quem deu o diagnóstico mais correto?

Para uma amiga

Toda vez que seu coração se punha a coçar, a menina ficava a perguntar: se era o bichinho do amor que, mais uma vez, se alojava nalgum cantinho, procurando emoção; ou se era a velha alergia à solidão que provocava prurido naquele coração? Mas, esse tipo de coisa ela conhecia tanto, que já tinha mais de uma solução: dar muitas risadas, porque sempre ouvia dizer que rir é ainda o melhor remédio; ou dançar bastante, até o ritmo roçar suas unhas compridas, mandando pra lá todo aquele tédio. E, enquanto escolhia o destino que daria a sua coceirinha, as batidas que também pulsavam diferente nesta ocasião entravam na maior agitação, transformando seu calmo e conhecido tum-tum no maior baticum. Hum, hum! Pensava a menina, não conseguindo se decidir e eleger uma opção. Por isso, seguia vivendo com a mesma coceirinha de amor; ou seria de solidão? Talvez, nem quisesse saber o que causava aquela comichão, porque, sabendo, ia perder a graça a sua grande questão. Fato é que até hoje a menina coça seu coração sem saber ao certo a verdadeira razão.

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