futuro do pretérito perfeito

Outubro 16, 2009 at 12:24 pm (coisa minha)

Era pra ser assim: você me olha, eu te olho, e desse olhar surgem faíscas. Essas faíscas vão durar dias, meses, anos, dependendo das pilhas que a gente usar. Era pra ser assim: o mundo vai ser só legal, não vou deixar nada nada te aborrecer, ou entristecer. Era pra ser assim: nossas diferenças se somarão. Vou achar um barato sua falta de sintonia com o resto da humanidade até que, bem, até que sua falta de regra esbarre em alguma bem sólida minha. Era pra ser assim: eu saberia agir em qualquer situação. Madura o suficiente para lidar com a grande maioria delas, vou empunhar sua bandeira e bradar com veemência que aquela é a bandeira pela qual eu luto, na qual eu acredito, porque, muitas vezes, as pessoas só precisam de um sonho pra sonhar. O problema é que eu não estou aqui pra brigar, ou pra achar só bonito o diferente ou o igual. O problema é que eu estou aqui, sentindo em cada poro do meu corpo. O problema é que esse coração nem pensa em lutar por nada: ele quer, na verdade, ser ganho, e esteve fora de mim, numa bandeja escondida – mas não inalcançável – esperando mansamente suas mãos de dedos longos alcançá-lo. Ele esperou em cima do guarda-roupa, deixando uma pontinha aparecer e mantendo a batida bem pausada: para não entregar seu esconderijo, mas procurando estar suficientemente cheio, para que fosse fácil de ser notado ao mais leve toque seu. Ele ficou assim, até que uma frase que não existiu, uma falta de pele ou de carinho na hora errada fez com que ele acelerasse e voltasse correndo goela minha abaixo. E agora está aqui, suspirando, pedindo que nunca mais eu diga o que ele deve esperar das coisas. Que ele prefere ficar assim: na quentura aconchegante e escura que é essa dentro do meu corpo. Pelo menos até eu ter na voz a segurança de dizer que sim, chegou a vez dele.

Link Permanente 1 Comentário