Foi no segundo dia do ano que vi minha avó, já altas horas da madrugada, dançando como podia no aniversário de 18 anos de um neto. Era mãozinha levantada pro alto, sorriso estampado no rosto que sempre olhava para os lados em busca de uma companhia para o passo. Sentada à uma distância segura para não ser vista, eu só sabia chorar olhando aquela cena, que até hoje me vem em slowmotion: e não foi justamente aquela senhora que não dormiu na madrugada anterior porque tava com medo de morrer? Não é esta a mesma pessoa que está com o coração já cansadinho e comprometido de tanta coisa gostosa que já comeu, dos 12 filhos criados, do marido que se foi tão cedo, da saudade dos filhos que moram longe? Sim, era. A mesma pessoa, com o mesmo coração dodoizinho, mas com o estado de espírito diferente. Talvez a alma, esta coisa que a gente sabe que existe e vira e mexe nos mostra uma força que não pode mesmo ser deste mundo, deu à vovó aquele brilho no olho, aquele rubor na bochecha, aquela alegria de viver, aquele esquecimento necessário das coisas ruins que nos acontecem, para que o sorriso possa brotar no rosto. E foi neste dia, o 2 de janeiro, que 2010 começou de verdade pra mim. Não importa o quanto o coração está machucado: importa saber viver bem com isso.
