Acordava com uma preguiça do mundo. Devia ser a TPM. Abria o olho, olhava o teto, as coisas em cima da cômoda – sempre desarrumadas, sempre sem incomodar. Puxava dois ou três fios de cabelo, só pra melhorar a concentração na preguiça. Talvez banhar primeiro, ou tomar café, ou checar os e-mails. Talvez mais 5 minutos na cama. Tá, hora de levantar. Falta de pensar em alguém.

Café tomado sem muito entusiasmo, remexido várias vezes, só pra dar uma esfriada, enquanto ouvia, no Bom Dia Brasil, como o dia amanheceu em São Paulo e que o vento fazia a sensação térmica cair mais 3 graus. Falta de pensar em alguém.

No caminho pro trabalho, entre uma marcha e outra, falta de estar indo encontrar alguém. Não, não apenas alguém: precisava do O alguém. Alguém que pudesse fazer tudo ou nada, e ainda assim ser bom. Alguém que, mesmo quando a conhecesse de verdade, não se ausentasse ou amedrontasse. Alguém que entendesse aquele vazio todo e aquela preguiça toda do mundo – que não, não é culpa da TPM, ou de um domingo – é achar que às vezes as pessoas são monótonas demais, o que denunciava à si própria. Alguém que, mesmo sem saber do seu medo imenso de se entregar, e talvez por isso mesmo, a ganhasse de forma a deixar o medo dela com tanto medo, a ponto de ir embora. E que esse alguém não fosse embora. E que esse alguém a deixasse com vontade de ficar.

Alguém?