desabafo do mês 12
Dezembro, pra mim, é um mês que não passa: trespassa.
Cada luzinha acesa em cada lugar onde o Natal é comemorado, só faz lembrar do que se apagou em mim.
com que roupa?
Vestida de saudade. Enfeitada com a falta que você me faz.
Meus brincos são seus beijos, que vivem aqui, balançando na minha orelha.
A falta do seu abraço é um agasalho às avessas, onde eu me escondo macia, protegida e quase completamente entristecida.
inacabado
Diz que o amor é diálogo.
Será?
E quando amor é silêncio que se olha e se entende?
Acho mais que o amor é dedicação.
Sim, quando ele não vem e te faz perder as pernas e o juízo,
É na dedicação que a gente encontra ele.
É num telefonema preocupado,
É num “você está bem?”
É num estar todo dia do lado e ainda sentir falta se a pessoa te falta.
manifesto contra a mesmice

“Insatisfação generalizada. É isso que você tem!”
Vicky Cristina Barcelona, 2008.
Pra desacostumar o olhar, pintei as unhas de verde. Quero mudar os cabelos, cortar bem curtinho. Pintaria toda a minha casa de azul, deixaria o céu prata por 24 horas inteiras. Pra você, poderia dar um céu branco, salpicado de pontos furta-cor. Pra pessoa que ta ali na esquina, esperando a hora de atravessar a rua, eu daria um céu com arco-íris, só pra ela esquecer do que está indo fazer por dois eternos segundinhos. Pra não acostumar nem as rodas do meu carro, mudo o caminho de ir pra casa. Pra não enjoar uma música, meu celular vive no vibra call. Resolvi lavar meu banheiro às 11 da noite, em pleno feriado. Tenho alguns poucos costumes e manias na vida – acho que sem eles, não viveria bem (apesar de ter certeza absoluta de que sim, viveria) – mas a pior mania de todas é ter pavor do que é igual sempre. Agora, por exemplo, que pintei as unhas de verde pra desacostumar o olhar, queria tanto que elas fossem pintadas de pink!
futuro do pretérito perfeito
Era pra ser assim: você me olha, eu te olho, e desse olhar surgem faíscas. Essas faíscas vão durar dias, meses, anos, dependendo das pilhas que a gente usar. Era pra ser assim: o mundo vai ser só legal, não vou deixar nada nada te aborrecer, ou entristecer. Era pra ser assim: nossas diferenças se somarão. Vou achar um barato sua falta de sintonia com o resto da humanidade até que, bem, até que sua falta de regra esbarre em alguma bem sólida minha. Era pra ser assim: eu saberia agir em qualquer situação. Madura o suficiente para lidar com a grande maioria delas, vou empunhar sua bandeira e bradar com veemência que aquela é a bandeira pela qual eu luto, na qual eu acredito, porque, muitas vezes, as pessoas só precisam de um sonho pra sonhar. O problema é que eu não estou aqui pra brigar, ou pra achar só bonito o diferente ou o igual. O problema é que eu estou aqui, sentindo em cada poro do meu corpo. O problema é que esse coração nem pensa em lutar por nada: ele quer, na verdade, ser ganho, e esteve fora de mim, numa bandeja escondida – mas não inalcançável – esperando mansamente suas mãos de dedos longos alcançá-lo. Ele esperou em cima do guarda-roupa, deixando uma pontinha aparecer e mantendo a batida bem pausada: para não entregar seu esconderijo, mas procurando estar suficientemente cheio, para que fosse fácil de ser notado ao mais leve toque seu. Ele ficou assim, até que uma frase que não existiu, uma falta de pele ou de carinho na hora errada fez com que ele acelerasse e voltasse correndo goela minha abaixo. E agora está aqui, suspirando, pedindo que nunca mais eu diga o que ele deve esperar das coisas. Que ele prefere ficar assim: na quentura aconchegante e escura que é essa dentro do meu corpo. Pelo menos até eu ter na voz a segurança de dizer que sim, chegou a vez dele.
smoke get in your eyes
As lágrimas que você não chora, escorregam ácidas e lentas para dentro da sua alma.
Mas, não se preocupa, não: logo depois de corroer o seu órgão de sentir, elas vão se transformar em fumaça.
E que mal pode fazer uma nuvenzinha negra em cima da cabeça?
momento trampo
o job era criar um convite para um bate-papo (perdeu o hífen? vou já verificar) sobre as diferenças sexuais, para o público professores da rede municipal. a palestrante, membro da Liga Brasileira das Lésbicas, tem currículo extenso e é bamba no quesito educação inclusiva. deu nisso:
criação minha e do paulo.
palmas para a diversidade, para as cores e para todas as conversas do bem!
les misérables
“Eita café cheiroso, mulher!”
Eu falei, ao mesmo tempo em que ela me perguntava se eu não queria levar um dos espanadores gigantes que ela tinha numa das mãos.
Sorrindo, ela disse: “Quer um gole?”
“Não, obrigada!”
Sorri, pisquei, entrei no carro, coloquei o cinto de segurança, dei a partida no carro. E me senti absurdamente miserável depois. Miserável por ela parecer ter tão pouco e ainda assim se oferecer pra dividir comigo. Miserável por não ter dado um dos muitos pães que naquela mesma hora eu tinha em mãos. Miserável por não me deixar ver tanta coisa que pisca pra mim, todos os dias, e que eu, cega, até olho, mas não vejo.
tem horas que a gente
É como um pássaro que acabou de re-aprender a voar: precisa voltar ao ninho, pra saber como é bom ter gravetinhos que abraçam.

