Às vezes, quando não nos permitimos ficar mortalmente feridos com a felicidade alheia, tudo o que nos resta é não pensar. Quem sabe assim, de pensamentos vazios, nos aproximemos um pouco do que somos de verdade.
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Foi no segundo dia do ano que vi minha avó, já altas horas da madrugada, dançando como podia no aniversário de 18 anos de um neto. Era mãozinha levantada pro alto, sorriso estampado no rosto que sempre olhava para os lados em busca de uma companhia para o passo. Sentada à uma distância segura para não ser vista, eu só sabia chorar olhando aquela cena, que até hoje me vem em slowmotion: e não foi justamente aquela senhora que não dormiu na madrugada anterior porque tava com medo de morrer? Não é esta a mesma pessoa que está com o coração já cansadinho e comprometido de tanta coisa gostosa que já comeu, dos 12 filhos criados, do marido que se foi tão cedo, da saudade dos filhos que moram longe? Sim, era. A mesma pessoa, com o mesmo coração dodoizinho, mas com o estado de espírito diferente. Talvez a alma, esta coisa que a gente sabe que existe e vira e mexe nos mostra uma força que não pode mesmo ser deste mundo, deu à vovó aquele brilho no olho, aquele rubor na bochecha, aquela alegria de viver, aquele esquecimento necessário das coisas ruins que nos acontecem, para que o sorriso possa brotar no rosto. E foi neste dia, o 2 de janeiro, que 2010 começou de verdade pra mim. Não importa o quanto o coração está machucado: importa saber viver bem com isso.
Para isso fomos feitos: Para lembrar e ser lembrados
Para chorar e fazer chorar
Para enterrar os nossos mortos —
Por isso temos braços longos para os adeuses
Mãos para colher o que foi dado
Dedos para cavar a terra.
Assim será nossa vida:
Uma tarde sempre a esquecer
Uma estrela a se apagar na treva
Um caminho entre dois túmulos —
Por isso precisamos velar
Falar baixo, pisar leve,
Ver a noite dormir em silêncio.
Não há muito o que dizer:
Uma canção sobre um berço
Um verso, talvez de amor
Uma prece por quem se vai —
Mas que essa hora não esqueça
E por ela os nossos corações
Se deixem, graves e simples.
Pois para isso fomos feitos:
Para a esperança no milagre
Para a participação da poesia
Para ver a face da morte —
De repente nunca mais esperaremos…
Hoje a noite é jovem; da morte, apenas
Nascemos, imensamente.
Vinícius de Moraes
“o amor e o menino começam brincando e acabam chorando”
Um filtro dos sonhos morando dentro de um caleidoscópio.
uma das razões pra que ela seja tão tão boa?
terá de haver um lugar para cada coisa, a fim de que cada coisa tenha o seu lugar e dele não saia.
Saramago, em A Viagem do Elefante
No teu beijo me cheguei
E ali mesmo me parti
No teu beijo me enterrei feito sapo de macumba
E meu coração bumba, bumba
E púf! Me faleci
Dei num veludo de céu
De vizinhança estrelada
Sem essas horas minguadas da tardinha de domingo
Nós de cacho do orvalho
Num longo beijo de coalho
Banhados no mesmo pingo
Beijo de primeiro apanha
Que eu só conhecia de oitiva
Me veio um fogo sem chama
Fiquei vermelho-gengiva
Quando um anjo verde-oliva
Das forças celestiais
Sem uma menina Jesus
Que visse amor nos casais
Só permitiu beijos-cruz
Sem jeito, suavizais
Como já estava beijando,
Deixei o anjo soprando
Os seus apitos finais
Jessier Quirino (lindo, lindo. cantado, mais ainda!)
Para você ganhar belíssimo Ano Novo
cor do arco-íris, ou da cor da sua paz,
Ano Novo sem comparação com todo o tempo já vivido
(mal vivido talvez ou sem sentido)
para você ganhar um ano
não apenas pintado de novo, remendado às carreiras,
mas novo nas sementinhas do vir-a-ser;
novo
até no coração das coisas menos percebidas
(a começar pelo seu interior)
novo, espontâneo, que de tão perfeito nem se nota,
mas com ele se come, se passeia,
se ama, se compreende, se trabalha,
você não precisa beber champanha ou qualquer outra birita,
não precisa expedir nem receber mensagens
(planta recebe mensagens?
passa telegramas?)
Não precisa
fazer lista de boas intenções
para arquivá-las na gaveta.
Não precisa chorar arrependido
pelas besteiras consumidas
nem parvamente acreditar
que por decreto de esperança
a partir de janeiro as coisas mudem
e seja tudo claridade, recompensa,
justiça entre os homens e as nações,
liberdade com cheiro e gosto de pão matinal,
direitos respeitados, começando
pelo direito augusto de viver.
Para ganhar um Ano Novo
que mereça este nome,
você, meu caro, tem de merecê-lo,
tem de fazê-lo novo, eu sei que não é fácil,
mas tente, experimente, consciente.
É dentro de você que o Ano Novo
cochila e espera desde sempre.
desejo paz pro seu coração.
